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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Loja de brinquedos para adultos

Capítulo 2 para quem não leu e quiser acompanhar

Primeiro: eu gostaria de pedir desculpa, faz 2/3 semanas que eu fiquei de postar a continuação do conto e acabei não continuando
Segundo: para me redimir vou postar dois capítulos hoje, o terceiro e o quarto.

Boa leitura.

Capítulo 3 - Dois-em-um: vagina e ânus, em silicone e látex

"Ai, meu Deus, será que dói?", cantarola a garota, balançando a cabeça esportivamente. Todos parecem se movimentar com maior naturalidade dentro da loja, embora ela continue a olhar apenas para o vendedor e para as prateleiras que guardam uma variedade de duas centenas de brinquedos para jogos do amor. Numa ponta do balcão, um rapaz com aparência de office-boy namora a capa de um vídeo intitulado 30 machos para Sandy. Na outra ponta, o executivo de terno cinza já desisitiu do alongador de pênis e agora está entretido com uma geringonça muito mais mirabolante: um conjunto de vágina e ânus numa massa de silicone e látex cor de pele, reproduzindo um corte dramático num corpor feminino. A peça de três quilos e trinta centimetros de altura tem dois canais independentes para penetração e vibrador com várias velocidades. Custa por volta de trezentos reais e é muito funcional, como sussurrou o vendendor num tom brincalhão ao lhe passar o objeto. "É o essencial de uma mulher e você não precisa levar pra jantar, nem dar presentes no dia dos namorados".
Depois de vinte minutos no sex shop, a garota olha o relógio mais uma vez e devolve o adstrigente, "não vou levar não, preciso antes consultar as bases lá em casa", diz enigmática. Falta apenas um conjunto de prateleiras para ela vasculhar - aquele que estão enfileirados os vibradores em forma de pênis. O vendedor inclina o corpo e prepara a estocada final - "Temos vibradores de silicone maciço fabricados em Los Angeles, Frankfurt e Hong Kong, a partir de duzentos e cinquenta reais. Aceitamos cheque pré-datado, cartão..."

Capítulo 4 - Um alentado pinto de vinil, cor de laranja

A garota não sorri mais e os diálogos agora são mais rápidos. Ela pede para ver um pênis alaranjado, que manuseia com cuidado, apertando nas pontas. "Esse é nacional, de vinil injetado", informa o vendedor. "Sai bem mais barato, setenta reais..." A garota faz uma contra-oferta, "dou cinquenta...". Negócio fechado.
Quando ela sai, mais ligeira do que entrou, o vendedor da um peteleco no tampo de vidro do balcão, "ufa, essa custou, mas eu sabia desde o início que ia vender um pinto para menina". Com a boca torcida, o vendedor faz uma expressão de prazer ao introduzir o cheque no bolso da camisa, aos pouquinhos. "Desse negócio eu entendo", congratula-se ele, aproveitando o momento em que a loja está vazia de fregueses.
O vendedor, um gaúcho de 29 anos chamado Milton, é na verdade o dono da sex shop. Mais que isso: apesar da sua aparência humilde, com os cabelos pretos e curtos penteados curiosamente para frente. Milton começa a esplahar uma rede de lojas em São Paulo - além dessa daqui e de outra a duas quadras de distância, num dos pontos comerciais mais nobres dos Jardins, ele abriu recentemente mais um estabelecimento no bairro classe média do Sumaré, não muito longe dali. "São lojas discretas, sem aquelas fachadas pretas e o clima pesado das sex shops do centro da cidade", orgulha-se o proprietário, que toca o negócio com dois outros vendedores e mais a mulher, Eunice, uma loira do rosto redondo e olhos azuis, com quem tem uma filha de 5 anos. Essa pequena e aguerrida equipe que vive se revezando nos três endereços, procura dar um toque quase familiar no atendimento à clientela - ou, no mínimo, um tratamento adequado as diferentes necessidades de cada um que decide cruzar a porta de entrada de uma sex shop.
"Boa sacanagem!", disse Milton, por exemplo, ao se despedir alegremente de um freguês que levou um pênis de silicone de trezentos e cinquenta reais no fim da tarde.
Ele tomou essa liberdade porque reparou bem no cliente - um rapaz muito bem vestido, com um sobretudo negro fechado até o pescoço, sapatos possilvelmente ingleses, óculos com lentes verdes quadradinhas e sem o menor traço visível de homossexualidade. Milton concluiu que o rapaz buscava o acessório para um festinha mais animada com algumas garotas e parece ter acertado na mosca. O cliente nes discutiu o preço (receberia um desconto de até cem reais, se soubesse chorar) e ainda assim saiu feliz da vida, com seu volumoso embrulho no bolso do sobretudo.
Para um cavalheiro ou uma senhora que entre na loja com um ar mais sombrio, constrangido até, Milton reserva um tratamento mais respeitoso, de fundo psicológico. O vendedor não faz qualquer pergunta embaraçosa, mas está sempre pronto para ajudar no que for preciso. Problemas de ejaculação precoce? Frigides? Tédio na relação? As sombrancelhas do empresário erótico se juntam, numa expressão solidária e compreensiva de quem pode ter a solução para quase tudo, em seu mundo mágico de carinhos movidos a pilhas e de aditivos para os sentidos mais variados.
- Querro valar sobre um endurecedor de pênis que comprrei de vocês - diz um sujeito com forte sotaque alemão
- Pois não - atende Milton
- Non vunciona
Milton junta as sombrancelhas e faz um gesto mudo de reprovação para Américo, o vendedor que divide com ele o atendimento na loja. Pela descrição do produto, é natural que não funcione: em vez de enrijecedor, Américo deve ter embrulhado por engano um lubrificante anal. Milton sugere a troca do preparado, sem entrar em maiores detalhes e o alemão parece satisfeito.
Muita gente vai em uma sex shop em busca de milagres. A ilusão mais comum é imaginar que existe uma poção para excitar as garotas quimicamente - até existe um preparado em conta-gotas chamado Tatty, que supostamente provocaria esse efeito. O distinto freguês levaria sua musa a um bar, por exemplo, e quando ela fosse retocar a maquiagem no toalete ele pingaria algumas gotas do preparado no seu drinque; a garota voltaria, tomaria alguns goles e começaria a arder de desejo, como uma vela de sete dias. "É tudo balela", reconhece Milton. "A fórmula tem bastante álcool e deixa a bebida mais forte, só isso". Para não ser acusado de enganar os consumidores, Milton retirou o Tatty das prateleiras de sua loja, mas achaa sinceramente que o produto não fazia mal - pelo contrário, poderia até ajudar de forma indireta o casal a se desinibir. "Sexo tem muito de cabeça. Se um sujeito acredita que alguma coisa começou a mexer com sua garota, ele pode ganahr coragem e ousar mais do que faria normalmente. Se for bem aceito, vai atribuir o sucesso ao preparado."


Continua na próxima quarta - Capítulo 5 - Parece uma vulva, mas...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Loja de brinquedos para adultos

Capitulo 1 - Quem não leu e quer acompanhar clique aqui

Capitulo 2 - Poção mágica para restaurar a virgindade perdida


Ela se aproxima com seu sorriso de dentes pequenos, que expõe um pouco da gengiva. É uma garota bonita, de atraiar a atenção masculina mesmo fora de uma sex shop. Tem perto de 1,70 metro de altura, cabelos negros e longos que caem sobre um corpo harmonio apertado por um vestido curto xadrez. Olhos claros, uma meia calça branca realça as pernas bem feitas e uma camiseta de mangas compridas, igualmente branca, acompanha a linha dos seios pequenos e firmes. "Sou louca por lingeries", informa ao se apoiar no balcão do vidro.

A garota parace nervosa, porque fala pelos cotovelos. Talvez esteja preocupada em preencher os espaços sonoros, para que ninguém tenha tempo de pensar bobagem dela num intervalo de silêncio dentro da loja. "Não, branca não", diz, recusando o primeiro lote de peças que o vendedor espalha por cima do tampo de vidro, formando um mar de rendas sintéticas. "Só uso lingerie preta ou vermelha." O vendedor estala dois dedos, feito astanholas e mergulha atrás do balcão. A garota segue falando no rumo em que ele sumiu. "Queria ver se vocês tem algum modelo diferente, mas original... Para o meu namorado tanto faz a cor, sabe? Ele é daltônico. Mas eu não uso branca nunca, nunca. Não gosto." O vendedor volta à tona com uma preciosidade que conseguiu pescar no fundo de uma prateleira: um conjunto de calcinha e sutiã de couro.

Ela ri, não se assusta com o preço - oitenta reais - e decide experimentar as peças num provador improvisado no banheiro da loja. Quando volta, tem uma ar desolado. "Ficaria ótimo, mas falta um elástico na parte de cima do sutiã que cai como uma aba", explica para o vendedor, que também lamenta o problema. A garota olha o relógio, que marca uma e meia da tarde e dá um passo na direção da porta, se desculpando pelo tempo que tomou. O vendedor sugere que ela conheça o resto da loja, já que está lá. A garota hesita, mas por fim aceita visitar o balcãos das pomadas e perfumes afrodisíacos. "Mulher é muito curiosa, sabe?" Abre e fecha frascos com líquidos roxos, verdes e amarelos, loções e cremes para quase tudo - um excitante vaginal, um preparado para retardar a ejaculação , um lubrificante para relação anal. - "Divertido!", diz a cada novidade. Está encantadas particularmente com o produto chamado Vagi Sept, que repete a fórmula do Virgin Again, um preparado que fez sucesso no mercado de artigos eróticos com a promessa de restaurar a virgindade de mulheres já experientes. "Mas vai doer como da primeira vez?", pergunta a garota, que está cada vez mais solta na loja. O vendedor esclarece que o segredo da fórmula é um adstrigente que serve para contrair os tecidos da região vaginal, de modo a dificultar a penetração. E custa só cinquenta reais.

Continua no próximo episódio. Próxima quarta. Acompanhem

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Loja de brinquedos para adultos

Capitulo 1 - Bastidores e cenas picantes numa loja de artigos eróticos no coração dos Jardins, em São Paulo
A garota desce três degraus de madeira na ponta dos pés e se vê sobre um tapete persa ilegítimo, mas bem conservado. Ela usa óculos com armação de gatinho e, por trás das lentes grossas, pisca várias vezes para acostumar a visão à penumbra da loja. Peixinhos vermelhos nadam num áquario às suas costas. Dois metros acima, o teto está todo coberto por um tecido com estampas de flores, em tons delicados de rosa e verde. Entre os arabescos do tapete no chão e as flores do teto, pendem da parede cabides com sutiãs de couro preto perfurados com tachinhas de latão, algemas, chicotinhos, uma coleira para pescoços humanos e um tapa-sexo com argolas de metal. Ao longe, descendo mais um lance de escadas, sob uma luz azulada de neón, destacam-se os contornos de vibradores em forma de pênism, enfileirados numa prateleira como soldadinhos de plástico prontos para uma guerra de meninos. "Oi", sorri a garota para o vendedor. "Sabe o que eu gostaria de ver?" Ainda silencioso, o vendedor faz um gesto amplo, englobando por um instante a coleção de pênis, a seção de pomadas milagrosas e o balcão dos vídeos em que belas atrizes transam com rapazes musculosos, com outras mulheres e com cachorros.
"Eu gostaria de ver o que você tem em lingeries", esclarece a garota, desfazendo parte do suspense que se espalhou num instante pela loja. Um executivo de terno cinza manipula um suposto alongador de pênis fabricado na Alemanha, uma engenhoca que lembra algo entre um tubo de ensaio gigante e uma bomba de encher pneu de bicicleta. O executivo está de costas para a récem-chegada e não faz qualquer movimento desde que ouviu sua voz, segundos atrás. Mas a tensão é desnecessária, porque a garota não olha para canto nenhum. Não olha para mais ninguém, exceto o vendedor.



continua no próximo episódio. Voltem.

domingo, 22 de junho de 2008

... Jornal

Era uma vez um jornal. Em cima dele, um teto empoeirado e à sua frente duas grandes olheiras. Era um belo jornal, o mais belo em muitos meses, diriam alguns. Isso devido à imagem que vinha estampada na capa. Os repórteres a chamariam de “furo” e o assassino de “vítima” . Mas ao jornal nada disso interessava. A única opinião que importava para ele era a daquela mulher desconhecida por trás das olheiras. E a reação dela foi bem diferente das esperadas.

Jornais vivem de expectativas e para ele, aquilo não era nada bom. Alguns jornais até chegavam a voltar para a banca, mas para a mesa do editor chefe, jamais.

- Minha senhora. Esse garoto é filho de uma deputada e foi cruelmente assassinado por um fugitivo perigoso. Uma bala só, certeira. Um absurdo. É por isso que ele está na capa do nosso jornal. Porque onde houver alguma injustiça contra a sociedade...

De resto, o jornal só ouviu “blá blá blá”. Já conhecia muito bem o papo do editor, estava todo estampado com ele. Queria mesmo era ouvir o que a mulher das olheiras tinha a dizer.

- Injustiça? Injustiça é colocar no jornal a foto do garoto morto em vez da foto do meu filho. Isso aí é caso perdido. Morreu, está morto. Meu filho está perdido por aí, na mão de algum safado. Já esse garoto, todo mundo sabe onde está.

Nada daquilo fazia sentido para o jornal. Para ele, só existia um filho, o da deputada. E aquela mulher não se parecia com a deputada.

É possível que o jornal tenha ficado entretido demais com a mulher das olheiras, porque só agora via que atrás dela vinha um batalhão de pessoas. Elas carregavam cartazes com a foto de outro garoto. Segundo a mulher das olheiras, haviam utilizado a foto errada na sua capa e, graças a isso, ele era um inútil.

Isso abalou a auto-confiança do jornal. Ele mal ouviu o que falavam depois. Só conseguia pensar que entre milhares de jornais, fora o único que não cumprira sua função. Agora estava ali novamente, embaixo do teto empoeirado, esquecido no canto da mesa, enquanto aquelas pessoas se reuniam em volta de uma caixa de leite. Na falta de um jornal, foi o que puderam oferecer à mulher das olheiras.

Ao jornal parecia óbvio que uma caixa de leite não valia como jornal. Enquanto estava nas prateleiras, conheceu inúmeros leitores de jornal, mas nenhum leitor de caixa de leite. Mas a mulher das olheiras só foi perceber isso muito tempo depois, quando mais e mais caixas chegavam e não havia ninguém para tomar aquele leite.

O leite azedou, assim como a mulher das olheiras. Leite tem prazo, esperança também. E logo a mulher das olheiras desabou. As olheiras finalmente se encontraram com o jornal, misturando lágrimas grossas com tinta rala. Aquela poça, que tingia o sorriso do filho da deputada de negro marcou o encontro final do que restava de um jornal com o que restou de uma mulher.

apocalipse artistico

Quando o figurão de voz rouca anunciou a sentença em cadeia nacional, o mundo inteiro comemorou. Ou o que havia restado dele. Nesse ponto o mundo já havia se transformado em um cenário apocalíptico, era o primeiro diagnóstico com o qual todas as religiões concordavam. Um fato inédito desde o surgimento da espécie mais contraditória que já existiu.

Não há muito o que dizer do homem porque, apesar de terem demorado a admitir, nada se conhece a seu respeito. Sabe-se que o cérebro humano tem dois hemisférios, ligados pelo corpo caloso. Mas isso não significa nada. Sabe-se que a pele é o maior órgão do corpo humano. Mas isso também não significa nada. Sabe-se que os seres humanos e os chimpanzés têm 98% dos genes em comum. Mas isso significa menos ainda. O que importa mesmo são os 2%. Malditos 2%. Se não fosse por eles, o mundo ainda estaria em pé.

O grande problema foi que demoraram demais a descobrir para que serviam os tais 2%. Quando os chimpanzés começaram a resolver enigmas matemáticos e estudar espécies inferiores, já era tarde. Os artistas haviam dominado o mundo. Semanas depois, estudando cérebros dessa espécie singular, os cientistas descobriram que o que sobrava de 2% neles, faltava dos 98%. Era uma divisão simples, 1% destinado à sua arte e 1% destinado ao seu ego.

O mundo se tornou uma cópia fiel de um quadro de Picasso, e isso não no sentido figurado. Aliás, em sentido algum. Na lógica de um artista só havia um critério de avaliação de uma obra: se o autor havia sido ele ou não. E foi com essa tática de julgamento e humilhação que eles quase superaram as pessoas normais e se tornaram a raça dominante. Isso até a última reunião de países, onde o presidente da ONU decretou o extermínio de todos os artistas.

Os matemáticos comemoraram com pulinhos esquizofrênicos e os professores distribuindo boas notas à rodo, mas ninguém ousou fazer um brinde como pretexto para se encher de álcool. Isso era coisa de artista.

“Coisa de artista” passou a ser uma expressão cada vez mais rara, assim como os próprios artistas. Os que não foram capturados de início presentearam a si mesmos com mortes, por assim dizer, artísticas. Alguns pintaram seus corpos até que não houvesse um póro livre da asfixia, outros derreteram seus rostos com ácido e aproveitaram os últimos momentos para moldá-los ao seu bel prazer e, por último, havia aqueles que empalhavam uns aos outros.

O planeta-arte se transformou em um ateliê de corpos e a raça humana finalmente pôde voltar aos seus ábacos, dicionários e sistemas binários. Mas, como já foi dito, não há nada mais contraditório que o ser humano. Eles não conseguiram viver em paz. Decidiram guerrear com a espécie semelhante que, eliminados os 2% de diferença genética, passou a ser os chimpanzés. Ganhou a espécie com maior senso ético e moral.

Foi assim que os chimpanzés dominaram o mundo. Eliminaram todos os humanos e se tornaram a espécie mais inteligente, perdendo para os golfinhos por apenas 2%. Mas não seria assim por muito tempo. Um dia, um chimpanzé descobriu uma velha lata de tinta, molhou o dedo e esfregou em uma árvore. Estava dada a sentença de extinção da raça.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Refutata et Fugue pt. 3

Lentamente, o Sr. Parker levantou-se e, retirando os óculos, disse:
- Sinto muito, Sr. Gable.
- Kal.
- Não, nada de Kal. Clark Gable, Grace Kelly, ou qualquer que seja seu nome, eu sinto muito, mas o senhor não pode ser o Super Homem!
Frente a isso o Sr. Gable levantou-se, francamente injuriado:
- Com o quê!! E quem o senhor pensa que é, para me tratar desse jeito? Por que o senhor pensa que tem o direito de me dizer quem eu sou ou deixo de ser, hein? Seu charlatão!
- Porque... – começou, rompendo com as mãos a camisa abotoada, revelando o collant azul com um S vermelho no peito, inscrito num diamantóide vermelho de fundo amarelo:
- ... EU sou o Super-Homem!
E saiu voando pela janela.


Oito da manhã. PÉÉÉÉÉÉÉM. Daryl Parker, ainda exausto, desliga o despertador sem que chegasse a acordar completamente. Apenas uns cinco minutos depois é que levanta, ao som de uma sirene. “Psychologist? What the fuck was that all about? ”, pensou, mas já estava atrasado e, enquanto vestia o uniforme, o sonho foi se apagando da memória. Deu pãozinho molhado para Júpiter e, quando já ia saindo, resolveu parar um momento, em frente à janela aberta de seu pequeno apartamento. Observando as pessoas lá embaixo, pensou, “Maybe there is an exit, after all”. Depois de alguns segundos de hesitação, subiu no parapeito. Hesitou um pouco mais e, melancólico,. deixou-se cair.
As janelas dos edifícios sucediam-se rapidamente na queda, todas iguais. Os transeuntes aumentavam de tamanho vertiginosamente. Mas eis que, justamente nessa situação insólita, ele sentiu que, na verdade, adorava o que fazia. Adorava sua vida, e amaldiçoou seu pensamento anterior. Num gesto hábil, ele contraiu o antebraço, formando um “hang loose” com a mão direita, grudando uma teia no alto do prédio vizinho. Arqueou e subiu de novo, seguindo as sirenes. Hora de salvar alguns traseiros.

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FIM, espero que tenham gostado.

sábado, 24 de maio de 2008

Refutata et Fugue pt. 2

Ok, so you wanna play?! Pensou Daryl Parker. Já havia atendido a pacientes desse tipo e, perito em técnicas de entrevista como era, conseguira abafar a estupefação, recompondo-se rapidamente. Era um jogo que ele conhecia bem. Let’s play, motherfucker.
- Mas o Super-Homem voa rápido. Por que o senhor se atrasou tanto?
- Perdi meus poderes. Está vendo o gesso? Caí de um telhado.
- Caiu de um telhado? Hum... diga-me, Sr. Gable, o senhor tem se sentido um pouco... pra baixo, talvez?
- Embaixo, na verdade.
- Deprimido, quero dizer?
- Pelo contrário. Nunca me senti tão ansioso. É por isso que estou aqui!
- Aaahh, é por isso...
Ops, hora de calar-se. O Sr.Parker já estava à beira de deslizar no anti-profissionalismo. Ok, let’s talk some fucking sense here. Levantou-se e lentamente caminhou até a janela.
- Sr. Gable, olhe pela janela, por favor.
- Sim. O que que tem?
- Por acaso o senhor está vendo as Torres Gêmeas?
- Não, não estou.
- Nem eu. Sabe por quê?!
- Não, por quê.
- PORQUE ESTAMOS EM NOVA IORQUE, É POR ISSO!!!
À luz de tal argumento, Clark Gable pareceu bastante confuso. Pouco depois, Daryl Parker juntou-se a ele, e os dois ficaram a olhar para o lado com expressão de espanto.
- Quero dizer, já passamos de 2001. O Super-Homem deveria ter uns 70 anos. No entanto, olhe para você!
- Na verdade, faço 103 semana que vem. Obviamente, eu não envelheço como vocês, humanos.
- De qualquer forma, o Super-Homem é de Metrópolis.
- Não, sou de Krypton. E sou um homem do mundo. Acontece apenas que eu perdi meus poderes em Nova Iorque.
“Sure, and ‘I Left My Heart In San Francisco’”, pensou Daryl Parker, maldosamente.
- Com perdão, Sr. Gable, mas…
- Pode me chamar de Kal.
- Ok, Kal. E como foi que perdeu seus poderes?
- Desconfio que haja uma conspiração para encherem o planeta de kryptonita. E já tenho alguns suspeitos.
Passados mais alguns minutos de conversa à mesa, a postura do Dr. Parker havia mudado, pois ele começava a acreditar que o pobre homem realmente pensava ser o Super-Homem, ao invés de meramente fantasiar para chamar atenção.
- Ok, Kal, mas acontece que o Super-Homem é um personagem de quadrinhos, criado por...
- Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1932. Eu sei bem disso. Acaso me toma por um maluco?
- Não, Kal, de forma alguma. Mas como você explica essa “coincidência”?
- Não é coincidência. Eles eram meus amigos íntimos, os únicos que conheciam minha verdadeira identidade, além de minha tia May. Eram pessoas riquíssimas, donos de um belo pedaço de terra em Las Vegas e, não obstante, humildes e de bom coração. Mas eis que um tal Sr. Richard Alexander Luthor, empreiteiro ambicioso, desenvolveu um coquetel homeopático que mesmerizou-lhes, obrigando-os a doar suas terras a ele que, em seguida, apagou suas memórias! Posteriormente, porém, passaram a escrever histórias que, inconscientemente, representavam de forma simbólica, mais ou menos fidedigna, o que se passava de fato!
- Entendo. Mas, diga-me, como ninguém nunca viu nem ouviu falar de um “verdadeiro” Super-Homem?
- Sou discreto.
- Não me parece muito discreto revelar-me sua identidade!
- Ei, e quanto ao sigilo profissional? Por que você acha que o Batman e a Mulher-Maravilha se casaram com seus terapeutas? Aliás... fiquei um pouco desapontado quando cheguei. Eu pensei que o senhor fosse uma mulher e...
Justo no momento em que a conversa estava ficando especialmente bizarra, pôde-se ouvir o som crescente de uma sirene. Bombeiros. Fogo. O Sr. Gable calou-se e fechou o semblante.

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Continua no próximo episódio

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Refutata et Fugue pt. 1

Lenta e dolorosamente, o jovem doutor Daryl Parker levantou cedo para outro dia de trabalho. Oh, shit, pensou. Enquanto se arrastava por dois metros até a cozinha, sentia os músculos fatigados. Comera uns waffles mecanicamente, com os olhos ardendo e o pensamento obnubilado, como se estivesse apenas sonhando que havia acordado. “Muito trabalho e pouca recompensa, hein, querida?”, resmungara para sua "cágada" Júpiter, a qual lhe fitava impassivelmente, a mastigar um naco de pão molhado.
Acomodou-se na poltrona de seu consultório às nove e quinze. Ao que parece, seu primeiro paciente estava ainda mais atrasado que ele próprio. Ligou o laptop e começou um Paciência, modo Las Vegas. Always the best, é o que costumava pensar. Nove e vinte e: PAM! Você perdeu – não há novas possibilidades. Aquele maldito sonzinho, Pam! Desapontado com a surpreendente derrota, recostou-se na poltrona e viu uma aranha branquela, asquerosa, passeando na mesa. “Whatta hell!!”. Por Deus, era a aranha mais horrível que já vira. “Shit, that damn bug could be Franz Fuckin’ Kafka, for fuck’s sake!”, pensara, desnudando sua infância no Brooklin a um eventual telepata que estivesse nas redondezas. “Or maybe myself... ”, concluíra, melancólico, enquanto enrolava um exemplar do American Journal of Psychology. Caceteara o “inseto” quando fez um PÉÉÉÉÉÉÉM. Era a campainha.
Adentrara aos tropeços o consultório um belo homem de uns 30 e poucos, branco e alto, de cabelos pretos curtos e franja em S. Perscrutava os arredores com olhos inseguros, por trás daqueles grandes óculos que ele ajeitava com o indicador esquerdo, já que o braço direito estava imobilizado. Convidara-o a sentar-se, acrescentando:
- Pois bem, senhor... Gable. É isso?
O jovem homem anuiu timidamente.
- Clark Gable? Como o ator?
- S-sim, mas... bem, isso é um pouco embaraçoso. Esse é um, digamos, pseudônimo.
- Ah, então o senhor é escritor?
- Não exatamente. Sou jornalista.
- Hum... muito bem. E qual é então, seu nome verdadeiro, Mr. Mystery Man?
- C-como adivinhou meu nome?
Daryl Parker lançou-lhe um olhar confuso, vacilante. Um segundo depois, porém, o intrigante homem abriu um sorriso e respondeu, movendo a mão para frente como quem diz “ora, vamos”:
- Ora, vamos! Hehehe. Meu nome verdadeiro é Kal-el!
Dessa vez os dois riram alto, e Daryl Parker até batia as mãos na mesa, divertido. E então, Kal-el ficou subitamente sério e disse:
- Bem, mas é sério. Kal-el.
- Desculpe, mas... esse é o Flash. Não, não. É o Super-Homem, certo?
- Certo. Eu SOU o Super-Homem.


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Continua no próximo episódio.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Morte da Consciência

Ele pegou sua caneta e disse aos seus seguidores que superassem os outros homens. Eles se armaram de facas e foices, violentaram as mulheres, mataram homens, machucaram crianças e fizeram prisioneiros.
- Mas não foi isso o que eu quis dizer – lamentou.
- Você não pode ensiná-los a ouvir - respondeu ela de dentro da sua cabeça.
Então chamou-os novamente. Pediu que refletissem. Sugeriu que se imaginassem em situação semelhante à dos prisioneiros. Eles imaginaram e mutilaram os prisioneiros antes que esses tivessem a oportunidade de dar um troco à altura.
- Não era isso o que eu queria - disse ele.
- Você não pode mostrar a eles como pensar - ela explicou.
Desesperado, ele entregou a eles todos os livros do mundo. Selecionou as páginas mais preciosas e grifou passagens que poderiam lhes ser úteis Mas eles usaram os livros de combustível para uma grande fogueira e nela queimaram os corpos dos prisioneiros. O cheiro das letras mortas impregnou o ar, o pó das mentes queimadas tomou toda a Terra.
- Nunca planejei semelhante espetáculo - ele bradava angustiado.
- Não cabe a você fazer com que entendam – a voz dela ecoou pelo seu cérebro.
Decidiu então reuni-los para lhes ensinar sobre as coisas. Contou-lhes o significado de tudo e exemplificou os ensinamentos mostrando onde haviam errado. Eles aprenderam, mas se sentiram tão culpados que se jogaram na fogueira. O fogo que consumiu as letras e mentes, devorou também o último facho de esperança.
- Mas eu dei a eles tudo o que precisavam na vida.
- Mas você não pode ensiná-los a viver.
Ele então tirou a caneta do papel, virou-a com a ponta para a frente, empunhou-a como uma arma letal e saiu à caça de vítimas. Ela foi sua primeira.

terça-feira, 11 de março de 2008

A hora do Bastião

De olhos bem abertos, pregados na porta, em vão esperava quem lhe alegrasse os últimos instantes. Ainda outro dia entregara ao doutor o papel amarrotado com telefones de parentes. O médino não encontrar ninguém e pedira à enfermeira que tentasse outras vezes. Mas o doutor escondeu o olhar ante o morimbundo, pois, embora acostumado à morte, ainda sofria diante da solidão.
Os olhos do velho fixavam-se na porta.
A enfermeira entra, contempla-o com ternura. O velho estende o braço descarnado para o soro. A moça sorri, carinhosa, passa a mão quente e macia naquele rosto cansado.
- Eles virão, com certeza.
- Vêm mesmo? - Brilham os olhos encravados na pele escura.
Rememora coisas. Preocupa-se em não misturar idéias, os filhos reclamam que está caduco:
- Mentira dele! Usam isso para não me escutarem mais. - Alteia a voz. Tosse.
Depois, conforma-se ao quarto, outra vez.
- O bom desses quartos de hospital é que a gente ensaia o sono eterno.
Cessa o barulho das visit\s no corredor.
- Moça, nasci quando libertaram os negors. Vivi a luta e a miséria da minha raça - A respiração obriga-o a pausas frequentes. Ela espera. - Muitos filhos e netos e bisnetos, moça, e hoje ninguém veio outra vez. - O velho olha para o chão, para o canto. A enfermeira enxuga-lhe as lágrimas da face enrugada. Algumas vezes ele cansa, dorme.
Durante dias desenrola lembranças em doses homeopáticas.
Gosta quando a moça diz ser ele o melhor paciente. Ela, um anjo velando. Pena os filhos, sempre tão ocupados. Gostariam de conhecê-la, diz-lhe.
- Mas conta outra história, vovô - Ela acomoda-se aos pés do velho, segurando a mão flácida.
E ele narra as dificuldades para sobreviver no início do século, quando tratavam, mesmo os libertos, como animais. De dia, no cafezal, ganhavam apenas pra comida. À noite, na senzala, cantavam e dançavam ao som dos atabaques. Ainda ouve o eco da cantoria. Sorri. Os brancos temiam as rezas da gente. Depois foram chegando os estrangeiros, tirando o trabalho dos negros.
Por essa época nasceu Raimundo, que aprenderia a ler, o Pedro, morto numa greve, e mais três ou quatro dos seus doze filhos. Vida miserável. A febre amarela levara outros dois ao túmulo, e a Força Expedicionária, o Nico, o mais novo. Bem avisei que não fosse.
Depois da pausa, segue pesaroso.
- Sem falar de Tiana, tadinha, a mais bonita da fazenda, de casamento marcado com Bentinho. Mas o sinhô-moço desgraçou a menina, na própria maloca, enquanto trabalhávamos fora. Bentinho não quis mais Tiana barriguda. Ela então pego a faca da cozinha, a de ponta e muito fio, esburacou a barriga até sair o sangue e o filho. Encontrei Tiana morta, quase enlouqueci.
A enfermeira repassa o lenço sobre aquela face dolorida. Afaga a mão do velho e a retém entre as suas.
- Esse braço era forte, moça.
Os olhos fecham-se. Por dentro, dói. Pára. Ela aguarda. O homem recompõe as forças.
- Com este braço e a velha adaga da revolução de 30,encontrei o rapaz num boteco. Ao ver a lâmina, chorou como um bezerro desmamado e pediu perdão. Pensei apenas em Tiana. Noutro dia, fala dos filhos quei o encheram de netos e estes, como ratos, duplicaram-se em bisnetos e tataranetos. Gerou doutores, advogados, comerciantes, operários e, rindo, até alguns marginais.
- A gente faz tudo pelos filhos, moça. Mas mal crescem, seguem o vento. - O fio de alegria desfaz-se outra vez - Na primeira oportunidade me jogaram no asili. Lá, esqueci os nomes, aniversários, filhos de quem. Tudo se pergunta de novo. Eles cansam das mesmas respostas, vão embora depressa, não voltam mais.
E, após recuperar o fôlego, segue - A gente adoece e morre em vida, moça. Sinto saudades de todos, mas apenas os mortos merecem lembrança. Estes parecem melhores. Não tem culpa por não virem. Breve os encontrarei.
- Vô, eu telefono mais uma vez, se necessário busco um deles à força. Quer? - A enfermeira, brinca - Espera, já volto. Tá?
- Não, filha. - Ele tosse. A respiração curta impede um esforço maior. Sua mão tenta reter a jovem, que sai com a lista de telefones.
Súbito, alguém bate à porta. Com grande esforço, o ancião volta o olhar. Dói-lhe o peito. Tenta falar. Mal esboça um sorriso.
A enfermeira retorna. Estranha o perfume silvestre e as pétalas espalhadas pelo chão. Ainda ouve um canto negro vindo de longe. Pela janela aberta, o céu luminoso rompe as cortinas esvoaçantes. Sobre a cama, com o rosto agora sereno, de olhos abertos e fixos na porta, o velho sorria à mais esperada das visitas.


Pense e nunca esqueça!

Um dia a maioria de nós irá se separar.
Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos.
Saudades até dos momentos de lagrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar quem sabe... nos e-mails trocados.
Podemos nos telefonar conversar algumas bobagens...
Ai­ os dias vão passar, meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro.
Vamos nos perder no tempo... Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão?
Quem são aquelas pessoas?
Diremos... Que eram nossos amigos.
E... isso vai doer tanto!
Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...
Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um ultimo adeus de um amigo.
E entre lágrima nos abraçaremos.
Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado.
E nos perderemos no tempo...
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades seja a causa de grandes tempestades...
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!


Pense nisso e reflita


AUTOR: ANONIMO


quinta-feira, 6 de março de 2008

Contos

A CASA QUE NINGUÉM QUERIA - CAPÍTULO 3






Quando entramos no carro para voltarmos para nossa casa, pensei ter ouvido algumas notas do piano. E se isso realmente aconteceu, eu fui o único a ouvir, pois ninguém comentou a respeito. Não contei nada sobre a voz no telefone nem para meu pai, nem para meu irmão. Só cheguei a contar, anos depois quando a poeira havia baixado. E realmente, não sei se acreditaram na minha história.
No dia seguinte, papai saiu cedo pra trabalhar. Eu estava com minha mãe - que havia chegado de viagem no domingo a noite - na cozinha quando o telefone tocou, ela olhou para mim. Não foi preciso dizer nada, entendi perfeitamente o recado. Corri para a sala e - quando olhei para o telefone - senti um arrepio no meu corpo todo.
- O que está esperando? - gritou mamãe da cozinha - atende logo!
Engoli seco e tirei o telefone do gancho. Daquele dia em diante, eu nunca mais consegui atender um telefone sem sentir um frio na barriga.
- Alô - disse eu
- É da casa do Sr. Henrique Lopes?
Deixei o telefone cair, tamanho foi meu susto. Eu conhecia aquela voz. É claro que conhecia. Era a mesma voz que eu ouvira no telefone antigo.
- Alô! Alô! - repetia o homem no telefone - Tem alguém aí?
Mamãe veio conferir o que estava acontecendo
- Que barulho foi aquele? - disse ela atrás de mim
- Nada demais - disse eu, pegando o telefone do chão - eu apenas derrubei o telefone.
Minhas mãos tremiam, minha mãe percebera. Mãe é mãe.
- O que você tem? - e tirou o telefone da minha mão, gentilmente.
- Alô! - disse novamente o homem.
- Quem é? - disse mamãe, ao telefone.
- Meu nome é Justiniano Oliveira. O Sr. Henrique Lopes está?
O homem falava muito alto, pude ouvi-lo como se eu estivesse segurando o telefone contra meu próprio ouvido.
- Ele acabou de sair - seus olhos estavam fixos em mim, provavelmente tentando entender porque eu estava tão assustado - foi mostrar uma casa para um cliente.
- Acredito que eu seja este cliente.
Mamãe deu um sorriso.
- Ah, entendi - disse ela, graciosamente. Mamãe tem o dom de conversar com qualquer um como se fosse um amigo da época do colégio. - Meu marido disse que você chegaria bem cedo de São Paulo, você ainda está na rodoviária?
- Sim, senhora. Sabe se ele está vindo me buscar?
- Sim, está. Atrasou-se um pouquinho hoje, mas logo estará aí.
- Ah, que bom. Perdoe-me pelo incômodo senhora.
- Incômodo algum, se você topar com um homem alto vestindo terno-cinza escuro e carregando uma maleta preta, é ele.
Senti uma vontade imensa de tirar o telefone das mãos da mamãe e gritar para aquele homem ficar longe daquela casa sinistra. Mas o que ele teria pensado daquilo, certamente pensaria que eu era um maluco de pedra.
- Que cara é está? - perguntou minha mãe, passando a mão no meu rosto, procurando sinal de febre - Parece que viu um fantasma.
Eu não tinha visto nenhum fantasma, mas talvez tivesse ouvido um.
Não consegui sossegar enquanto meu pai não voltou para nossa casa. Senti um alívio tão grande quando ele apareceu à porta, com um sorriso de orelha a orelha. Deu um beijo tão apaixonado na minha mãe, que cheguei a sentir nojo.
- Nossa! - exclamou mamãe, surpresa - O que deu em você? Viu um passarinho verde?
- Consegui vender a casa que ninguém queria - respondeu ele, quase espumando de felicidade. - Vendi a casa mais dificil de se vender em todo o planeta Terra!
Apesar de toda alegria nos olhos do meu pai, não consegui encarar aquilo como uma noticia boa. Eu sentia que algo ruim estava para acontencer.
E acontenceu.
Após duas semanas morando sozinho naquela casa, Justiniano Oliveira desaparecera. Até hoje ninguém sabe o que aconteceu. Seu corpo jamais foi encontrado.

FIM

Espero que tenham gostado, logo começarei a digitar outro. Um abraço a todos que acompanharam.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Contos

A CASA QUE NINGUÉM QUERIA - CAPITULO 2


Não tenho certeza se a casa continua nas mesmas condições daquela época. A descrção que farei será baseada naquele verão de 1990, quando a visitei pela primeira e única vez. A casa fica em Pindamonhangaba quase na divisa da cidade vizinha de Tremembé. Seus muros altos impediam que vandâlos a invadissem com facilidade, (se bem que a casa tinha uma reputação tão ruim que nenhum morador local se atrevia a invadi-lá, mesmo com os portões escancarados). Os portões de ferro eram altos e estavam enferrujados. A tinta preta resistira em apenas alguns pontos. Passando pelos portões havia um longo caminho de cimento até a casa. Ao lado deste caminho haviam árvores de todos os tipos, elas estavam quietas; suas folhas imóveis. Tudo que a tarde estava muito quente e nenhuma brisa sequer, mas eu nunca tinha visto árvores tão imóveis como aquelas.
- Isso aqui está bunito demais para ser mal-assombrado - disse Paulo, olhando as árvores ao redor.
Eu não estava achando nada bunito. Era estranho
- Não está faltando ninguém aqui conosco? - perguntei
- Sua mãe, iria adorar isso aqui .
Duvido muito, mamãe era e continua sendo a criatura mais medrosa da face da Terra. É capaz de subir na cadeira e aprontar o maior escandalo por causa de uma minúscula lagartixa.
- Não estou falando da mamãe - corrigi - estou falando da pessoa que está interessada na casa, ela não deveria estar aqui também?
- Ele só virá amanhã de manhã, o rapaz mora em São Paulo. Nós estamos aqui para checar se está tudo em ordem.
- Ah, tá.

Caminhamos todo o caminho de cimento até a casa. Dava a impressão de que estávamos passeando por um bosque. Uma vez ou outra tive a sensação de que alguma coisa saltaria de trás de alguma árvore, mas isso não aconteceu. Olhei para trás e vi como era longo aquele caminho, os portões de ferro, la na outra ponta, ficaram minúsculos. O nosso carro, estacionado do lado de fora, era agora apenas um borrão vermelho.
A frente da casa era grande, o revestimento externo era todo de madeira. A pintura estava mais bem conservada do que nos portões, revelando um marrom bem escuro, quase preto. Eu nunca tinha visto uma casa pintada daquela cor. Olhei bem para a casa e, à primeira vista, tive a impressão de que ela nos observava. Havia duas janelas na parte de cima, como olhos assustados. Embaixo apenas uma porta alta de madeira escura, como uma boca gritando por socorro. Já vi oito filmes de terror com casas muito parecidas com esta. Talvez fosse por isso que achavam aquela casa mal-assombrada. Mas na verdade, não era só por isso.
Papai girou a chave na fechadura e a porta se abriu diante de nós. Ao contrário de que estamos acostumados ao ver nos filmes, a porta não fez barulho algum.
- Buuuuuuuuuuuuuu! - gritou papai, virando-se para nós.
Paulo e eu caímos numa gargalhada sem fim.
- Muito assustador, pai - disse eu, ironicamente.
Ele franziu a testa e sorriu orgulhoso para mim.
- Esqueci que vocês dois já são quase homens - e ele passou as mãos sobre nossos cabelos, despenteando-nos - só faltam os pêlos na cara e...
Um gato miou dentro de casa, o som foi alto e nos pegou de surpresa.. Aquilo sim foi assustador. Meu coração quase parou.
- Odeio gatos - disse papai, olhando curioso para dentro da casa.
Entramos na casa, nenhum sinal do maldito gato. O sol ainda ardia lá fora, estávamos em horário de verão. Os dias sempre são mais longos e abafados durante esta época do ano. Odeio calor, sempre me lembro daquela tarde.
A casa tinha um cheiro nada agradável de mofo. Estava fechada há muito tempo, cinco anos, como fiquei sabendo mais tarde.
Depois de alguns minutos, nós nos acostumamos com o cheiro ruim. A sala era aconchegante, estava perfeitamente mobiliada com sofás, uma mesinha de centro, uma estante enorme de madeira, cheia de livros e um criado-mudo estaconado num canto. Sobre o criado mudo havia um telefone muito antigo, daqueles que a gente só vê em museus sobre a história das telecomunicações.
- Quem é o dono desta casa? - perguntei, olhando para a estante cheia de livros.
- Na verdade, é uma proprietária, dizem que a velha é podre de rica
- Ela mora aqui em Pinda mesmo? - perguntou Paulo
- Não, acho que mora em Salvador.
Percorremos cada cômodo da casa e não encontramos nada que justificasse a fama de mal-assombrada. Tudo bem, quando papai abriu a porta, ouvimos aquele gato misterioso. Mas era apenas um gato, não era? Os fantasmas precisam se enforçar um pouco mais pra me convencer.
Estavamos os três na parte superior da casa. Assim como a sala, todos os quartos estavam, impecavelmente, mobiliados. Havia oito quartos lá em cima, além de dois banheiros e uma saleta com um piano. Lembro-me de ter ficado excitado ao ver o piano. Aquele era o meu instrumento dos sonhos, na época eu tinha um teclado Casio, mas nem se comparava. Sentei-me no banquinho e tentei erguer a placa que cobria as teclas, mas não consegui. Parecia estar colada, papai e Paulo tentaram me ajudar, mesmo assim não foi possivel. Fiquei tão frustrado que chutei o instrumento com força, papai quase teve um ataque.
- Márcio, você ficou louco?!? - senti sua pele ficando vermelha e sua mão esquerda começava a tremer - sabe quanto custa um piano como este?!?
- Eu só queria tocar um pouquinho
- E acha que chutá-lo ajuda em alguma coisa?
- Desculpa!
E desci as escadas revoltado e um pouco arrependido da besteira que tinha cometido. O chute que eu dera poderia mesmo ter danificado o piano, seria o fim da minha mesada, por longos anos.
Sentei-me num dos sofás da sala, de braços cruzados e balançando as pernas sem parar. Devo ter ficado naquele estrado de transe por dois ou três minutos, vendo meu par de tênis branco, subindo e descendo sem parar. Quando comecei a ficar entediado com aquilo, ergui os olhos e vi o telefone antigo, fiquei de pé e caminhei sorrateiramente até o criado-mudo. Até hoje, não entendo porque olhei para os lados antes de pegar o telefone. Não tinha ninguém ali, não é? Acho que são coisas de criança levada; a força do hábito.
Tirei cautelosamente o fone, estava ligado ao aparelho através de um fio grosso, bem diferente dos de hoje. Coloquei o fone no ouvido e aquilo me fez lembrar do último gibi do Batman que eu tinha comprado.
- Sim, comissário Gordon - disse eu, com o telefone na boca - já estou indo...
Ouvi um grito seco e assustador pelo telefone. Não era nenhum grito fantasmagórico ou monstruoso, mas sim de um homem. O susto foi tão grande, que deixei cair o telefone das minhas mãos. Para minha sorte, o aparelho caiu sobre o sofá macio.
Prontamente arrumei o telefone no lugar, aparentemente não quebrara nada. Minhas mãos tremiam, senti uma vontade enorme de subir as escadas correndo, mas permaneci na sala, vidrado naquele telefone da idade da pedra.
O telefone estava ali apenas de enfeite; não havia nenhum fio que o ligasse a coisa alguma. Um telefone de museu seria mais útil do que aquele diante dos meus olhos. Mas de onde tinha vindo aquele grito então? Será que eu tinha imaginado aquilo?
Não, eu ouvi perfeitamente o grito apavorado de um homem. E é claro que aquela voz não era do Comissário Gordon sendo atacado pelo Coringa. A voz era real, tão real quanto a minha ou a sua.
Com as mãos trêmulas peguei o fone outra vez. Levei-o lentamente ao meu ouvido e... Nada. Apenas um zumbido baixinho, perfeitamente normal. Fiquei com o aparelho no ouvido durante uns vinte segundos. Assim que eu pensei em devolve-lo à base, ouvi a voz daquele homem outra vez. Ele estava chorando, apavorado. Tive de me esforçar para poder entender o que ele estava dizendo. O que consegui entender, foi: "Quem é você? O que quer de mim? Não!!! Não!!! Por favor, não!!!" E a voz foi ficando baixinha, distante, ininteligível.
Quem era aquele homem? E do que ele tinha tanto medo? Seria alguma coisa do passado? Alguma coisa acontecera naquela casa?



Bom galera, vou parando por aqui por hoje, por que amanhã tenho que acordar cedo e novamente terminei isso aqui muito tarde, qualquer erro de ortografia ou se eu engoli alguma letra é por que meu teclado tá uma merda, logo que eu consertá-lo conseguirei escrever direito novamente, espero que tenham gostado, e peço que comentem, acompanhem o próximo capitulo, poderá ser o último ;)



terça-feira, 4 de março de 2008

Contos

Como disse, não tenho o que fazer e vou começar a colocar capitulos de contos aqui, talvez interesse um pouco mais, junto com esses capitulos vou intercalar algumas coisas que para mim pode ser interessante, não vejo BBB, mas seria um bom assunto pra se colocar aqui, examinando o psicologico de cada um lá dentro, mas acho aquilo uma verdadeira cultura inútil, perdendo só pra Casa dos Artistas. Começando o Conto, boa leitura a todos.

A CASA QUE NINGUÉM QUERIA - CAPITULO 1


Aos dez anos eu não acreditava mais em papai noel. Aos onze as histórias sobre bicho-papão já não me assustavam. Quando completei doze eu não acreditava em casas mal-assombradas, mas isso porque eu nunca tinha sido convidado a visitar uma.
E o convite veio numa tarde quente de verão, lembro-me de cada detalhe daquele domingo de janeiro de 1990.
Mamãe tinha viajado para Búzios com as amigas naquele final de semana. Meu pai ficara com a dura missão de cuidar de mim e do meu irmão; gêmeos idênticos. Idênticos não só fisicamente, mas em quase tudo. Gostávamos dos mesmos programas de TV e praticávamos os mesmos esportes, éramos super ativos, não parávamos quietos um segundo sequer. Mamãe costumava nos chamar de Furacão Um e Dois. Eu era o Furacão Um, mas não me pergunte por qual motivo. E por mais idênticos que fôssemos, ela nunca errava ao nos dar uma bronca. Nunca. Já meu pai, uma vez levei uma surra no lugar do meu irmão. Hoje a gente ri muito dessa história em reuniões familiares, mas no dia eu não achei a menor graça.
Papai trabalhava como corretor de imóveis naquela época. Meu irmão e eu achávamos a coisa mais chata do mundo. Morriámos de inveja do Caio. Caio era um ano mais novo, éramos vizinhos desde o berçário; seu pai era piloto da Vasp, aquilo sim era profissão legal. Acho que uma vez dissemos isso na frente do meu pai. Pobre coitado aquilo deve tê-lo magoado bastante. A sinceridade de uma criança chega a ser cruel.

Estávamos os três na cozinha preparando um lanche quando o telefone tocou. Ficamos um olhando pra cara do outro até que meu pai franziu a teste e olhou direto pra mim.
- O que está esperando? - disse ele, não tão zangado. - Eu sou o único com as duas mãos ocupadas aqui.
E o Furacão Um foi atender o telefone.
- Alô.
- Paulo?
Reconheci a voz imediatamente. Era o Sr. Martussely, chefe do meu pai. Ele nunca acertava nossos nomes, na verdade, quase ninguém acertava.
- Não - disse eu, tentando não ser rude - Sou o Marcio
.
- Ah, desculpa. Até a voz de vocês é igual - como seu eu não tivesse ouvido essa desculpa um zilhão de vezes - Seu pai está por aí, campeão?
- Sim - afastei o telefone da boca e gritei na direção da cozinha: - Paaaaaaaaaaaaaaaaai, é pra você!
Voltei para a cozinha, meu irmão já estava com um baita sanduíche nas mãos. Paulo comia praticamente em dobro, mesmo assim tivemos corpos iguais até os dezoito anos, de lá pra cá ele engordou. E se continuar engordando não vai conseguir entrar no seu carro daqui alguns meses.
- O que está olhando? - disse Paulo, com uma mancha de maionese no canto da boca.
- Sua cara de idiota - respondi e sorri ironicamente.
- Se eu tenho cara de idiota você também tem.
E era a mais pura verdade, muito cuidado ao ofender seu irmão gêmeo.
Quando papai voltara da cozinha havia algo diferente nele. Ele estava vermelho e sua mão esquerda tremia um pouco. Aqueles eram os sintomas mais claros de que ele estava nervoso. Era um sinal de que era melhor ficarmos quietos e bonzinhos.
- Porra, hoje é domingo! - esbravejou, batendo forte na mesa. As migalhas do pão saltaram uns vinte centimetros e se o copo de café com leite do Paulo não estivesse em suas mãos teria voado pelos ares também.
Não dissemos nada, parti um pedaço de pão e enfiei duas fatias de presunto. Enquanto pegava uma fatia de queijo ergui os olhos para meu pai. Ele não estava mais tão vermelho e sua mão não tremia mais.
- Desculpa - disse ele, um pouco envergonhado - Vocês não tem culpa.
- O que ele queria, pai? - perguntei, enfim.
Papai encheu um copo com leite, tomou metade do copo, depois respondeu meio desanimado.
- Tem uma casa antiga na saída da cidade, faz tempo que tentamos vendê-la ou alugá-la, mas nunca conseguimos. Nem o Francisco, o melhor corretor da empresa, conseguiu essa façanha.
- E agora tem alguém interessado nela? - perguntou Paulo
Papai levantou os olhos na sua direção, ainda sem ânimo algum, respondeu.
- Parece que sim.
- Mas hoje é domingo! - disse eu, chateado.
Papai finalmente sorriu, foi um sorriso amarelo, mas sorriu. E olhou para mim.
- Nem tudo está perdido - disse ele. Sua voz parecia mais empolgada - Pode ser até divertido.
Olhei para meu irmão e ele olhou para mim também. Se tivessemos combinado, não teria dado tão certo. Nossas expressões faciais foram as mesmas, senti-me em frente de um enorme espelho.
- Divertido? - dissemos praticamente juntos. A sensação foi mais bizarra ainda.
Papai terminou de beber o leite e respondeu.
- Dizem que está casa é... mal-assombrada.
Se você deseja que esta frase tenha um efeito assustador é necessária certa mandinga ao dizê-la. E meu pai não a possuía. Ele disse de uma forma que pareceu um final de piada. Papai quase caiu numa gargalhada seca ao dizer "mal-assombrada". Talvez ele tenha feito de propósito. Não sei se teríamos o acompanhado se ele tivesse dito de uma forma mais horripilante; ou se tivesse nos contado que nove pessoas tinham desaparecido naquela casa nos últimos anos, o que importa é que nós o acompanhamos.

CONTINUA NO PRÓXIMO POST.
já são 2 e 24 da manhã preciso durmir, boa noite e espero que tenham gostado.